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quarta-feira, 23 de abril de 2014

                                      Greve nos Colégios Estaduais

     Às vezes lembro-me de uma história de uma professora do Primário, época que nem opinião eu tinha, costumava contar em aula sobre uma tal ladeira do Amendoim. Conta ela que estava naquelas conversas de elevador em que um sujeito, espantado, falava-lhe sobre uma nova descoberta: uma ladeira no Ceará (ou lomba, para os gaúchos) a qual tinha a incrível habilidade de fazer com que os objetos jogados nela subissem, em vez de descer. Imagino a cara incrédula da professora, de quem pensa que não há como convencer alguém que não há como existir uma ladeira que contrarie as leis da gravidade: às vezes eu fico com a mesma cara quando tento expor meus argumentos sobre a greve dos professores para algum aluno que seja a favor dela.
                Perdoem-me a arrogância do parágrafo acima, mas até o momento nenhum argumento (e olha que já escutei muitos!) convenceu-me a modificar minha opinião. E a arrogância provém do fato das agressões que venho recebendo de cerca de dez por cento dos alunos a favor da greve, que sempre vêm me passando um xalalá distorcendo meus preceitos morais: “Então tu és um reacionário! Tu és contra a educação paranaense! Tu és a favor de continuar pagando uma miséria aos mestres!”. Os outros noventa por cento são mais sutis: falam a mesma coisa, porém não na minha frente. Alguns deles, por serem meus amigos, são muitas vezes ingênuos: acreditam na história que estão os contando, e, por serem a favor da causa, são a favor greve.
                Acontece que o problema é justamente esse: a mania populista de dicotomizar o mundo. Ou tu és a favor da greve por ser a favor da causa, ou tu és contra a greve por ser contra a causa. Poxa, mas algum aluno em sã consciência tem a cara-de-pau de ser contra melhores salários para os professores, melhores condições de trabalho, melhores condições de ensino? Posso estar muitíssimo enganado, mas acredito que não haja nenhum! E por nenhum (espero que todos tenham a capacidade de entender isso), quero dizer que eu me incluo nessa lista!
                E lá vem mais dedos em riste em direção a minha face: “Seu reacionário! Típico de um burguês da classe média! A favor da causa, mas é só prejudicar as tuas férias que já ficas contra a greve!”. Mas vocês não entendem? É óbvio que eu quero férias (por que algum insano não gostaria de férias?). Mas o que isso tem a ver com ser um burguês da classe média reacionário?
                A resposta é a seguinte: eu sou um estudante! E ponto. Eu não posso (simplesmente pelo fato de não poder), como classe estudantil, ser a favor de algo que me prejudica! E não é por egoísmo da minha parte, como pensam alguns. Eu não posso ser a favor porque me prejudicar é exatamente o objetivo da greve: se não prejudicassem os estudantes e o ensino, os professores não fariam greve. Mas ainda assim: não me entendam mal, pois eu não culpo os professores (eles têm todo o direito de fazer greve – e o devem fazer!) por tentarem me prejudicar: pelo que estou percebendo é a única maneira que eles têm para lutar contra seus problemas. O que não significa que eu tenha que gostar disso! Sou a favor da causa, mas contra fazerem greve, pois quero ter aulas. E é isso que todos deveríamos pensar. Se em vez de apoiar a greve dos professores os alunos se preocupassem em ir na direção certa – pressionar o governo para NÃO ter greve porque queremos ter aula –, aí sim seria possível ter algum resultado. Percebem a distorção da coisa? Nós temos que ser contra para ser a favor da causa, e não porque somos contra a causa. Ser contra a greve, não é ser a favor do governo e, sim, ser contra o governo permitir que os professores façam greve.
           Não sei quem são os Corajosos professores do CERP (Colégio Estadual Rocha Pombo), que não se curvaram a essa Greve, e continuam honrando essa tão importante profissão!
         Mas tudo que tenho encontrado são decepções. Cada vez mais, encontro alunos iludidos (mas por causa nobre, eu sei!), acreditando no velho discurso que temos de apoiar os professores. Isso é uma visão errada e mal-entendida da situação. É a tal ladeira do Amendoim…

                                                                      Lucas Gonçalves, Morretes, 23 de Abril de 2014!

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